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April 18, 2019 | Author: Caio Wagner Galvão | Category: N/A
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O autor Anton Pavlovitch Tchekhov nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade do Sul da Rússia, no seio de uma família modesta. Apesar disso, conseguiu frequen‑ tar o liceu da terra natal, transitando, em 1879, para Moscovo, onde a sua numerosa família já se fixara, e matriculando­‑se aí na faculdade de Medicina. Depois de formado, exerceu medicina durante alguns anos em diversos centros rurais. No entanto, depressa se apercebeu de que sua verdadeira vocação eram as letras. A partir de 1883, Tchekhov passou por uma intensa fase de criação literária: publicando centenas de contos, al‑ gumas tentativas de romance e diversas obras de teatro. Em 1887, ganhou o Prémio Pushkin, da Academia Russa, e a sua segunda antologia de contos granjeou­ ‑lhe grande popularidade. É no final da sua curta vida – morreu em 1904 aos qua‑ renta e quatro anos, vítima de uma tuberculose que contraiu na juventude – que escreve as peças que o con‑ sagram como grande dramaturgo: A Gaivota, Tio Vânia, As Três Irmãs e O Cerejal. É mundialmente aclamado como mestre do conto moderno.

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cabeça no ar

I No casamento de Olga estavam presentes todas as pessoas suas amigas e conhecidas. – Reparem, vocês não acham que há nele qualquer coisa? – pergun‑ tava ela, indicando o marido, como se quisesse justificar o seu casa‑ mento com um homem simples, vulgar e sem nenhum dom especial. O marido, Ossip Stepanytch Dymov, era médico e tinha a catego‑ ria de conselheiro honorário. Trabalhava em dois hospitais. Num era assistente além do quadro e no outro preparador anatómico. Todas as manhãs, a partir das nove horas, dava consulta e ocupava­‑se da enfer‑ maria. Depois do meio­‑dia ia de elétrico para o outro hospital, onde fa‑ zia autópsias. Não tinha doentes particulares e ganhava por ano cerca de quinhentos rublos apenas. Era tudo. Que se poderá dizer mais a seu respeito? Por seu lado, Olga Ivanovna e os seus amigos e conhecidos não eram pessoas vulgares. Todos eles ocupavam posições de relevo e des‑ frutavam de certa fama. Tinham um nome feito, célebre, ou esperanças de isso vir a suceder: um, ator dramático, cujo talento há muito fora reconhecido, elegante, inteligente, simples, bem­‑falante, que andava a ensinar a Olga Ivanovna a arte de declamar; outro, cantor de ópera, grande boémio, garantia a Olga Ivanovna que ela estragara a vida, pois, caso não houvesse precipitado o casamento, poderia tornar­‑se uma cantora notável. Dava­‑se também com vários pintores, sobretudo Ryabovsky, paisagista e animalista, um belo rapaz, louro e muito novo,

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o qual, apesar de ter apenas vinte e cinco anos, obtivera já grandes êxi‑ tos nas exposições e vendera o último quadro por quinhentos rublos; orientava os estudos de Olga Ivanovna e dizia que esta tinha possi‑ bilidades de vir a ser alguém na pintura. Havia ainda um violonce‑ lista – cujo instrumento chorava e que afirmava com sinceridade ser Olga Ivanovna, entre todas as mulheres que conhecia, a única capaz de o acompanhar –, além de um escritor, novo mas já famoso, au‑ tor de vários romances, peças de teatro e contos. E quem mais? Bom, contava­‑se também entre as suas relações Vassily Vassilyitch, fidalgo, proprietário rural, ilustrador­‑amador e vinhetista, que conhecia bem o antigo estilo russo, as suas lendas e a sua epopeia: pintava fielmente estas maravilhas no papel, na porcelana e em pratos… No meio desta sociedade de artistas sem preconceitos e favorecidos pelo destino, delicados e discretos, sem dúvida, e que apenas se lem‑ bravam da existência dos médicos em caso de doença, deste grupo que ligava tão pouca importância ao nome de Dymov como ao de Siderov ou Tarassov, sim, no meio desta tertúlia, Dymov parecia deslocado, a mais, muito pequeno, embora fosse alto e largo de ombros. Dava a impressão de usar fatos emprestados e a sua barba lembrava a de um caixeiro­‑viajante. Caso fosse escritor ou pintor, dir­‑se­‑ia que a barba lembrava a de Zola. O ator comparava Olga Ivanovna, com os seus cabelos macios e o vestido de noiva, a uma cerejeira cheia de flores na primavera. – Não, oiça – disse ela, pegando­‑lhe na mão –, oiça como isto acon‑ teceu. É preciso explicar­‑lhe que o meu pai trabalhava no mesmo hospital que Dymov. Quando o meu pobre pai adoeceu, Dymov acompanhou­‑o noite e dia. Que desvelo! Oiça, Ryabovsky… e a você, como escritor, isto deve interessar­‑lhe também. Aproxime­‑se mais… Que dedicação, que simpatia! Eu passava todo o tempo possível junto do meu pai. De repente, um belo dia, tinha conquistado o rapaz. O meu Dymov estava mesmo pelo beicinho. O destino é na verdade es‑ tranho. Depois da morte do meu pai, ele foi algumas vezes a minha casa; encontrávamo­‑nos na rua e, uma bela tarde, pumba, pediu­‑me em casamento. Foi como uma martelada que me deram na cabeça. Chorei toda a noite e acabei por ficar também muitíssimo apaixonada. E assim, como vê, tornei­‑me sua mulher. Não é verdade que existe nele qualquer coisa de forte e de poderoso? Tem neste momento o

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corpo virado a três quartos e pouco visível; mas, quando se voltar, olhe­‑lhe para a testa. Ryabovsky, que diz você àquela testa?… Dymov, estamos a falar de ti! – gritou ela ao marido. Chega­‑te cá; estende a tua mão leal a Ryabovsky. Sejam amigos. Dymov, sorrindo com indulgência e ingenuamente, estendeu a mão a Ryabovsky e disse­‑lhe: – Muito prazer! Houve um Ryabovsky que se formou em Medicina ao mesmo tempo que eu. Será da sua família?

II Olga Ivanovna tinha vinte e dois anos, Dymov trinta e um. Entenderam­‑se bem depois do casamento. Ela decorou as paredes do salão com desenhos seus e de outras pessoas, uns emoldurados, outros não, e improvisou, perto do piano e dos móveis, um cantinho muito acolhedor, com chapéus de sol, cavaletes, farrapos de muitas cores, punhais, pequenos bustos e fotografias… Colou nas paredes da sala de jantar gravuras populares, pendurou sandálias de tília e uma podoa. Encostou a um canto uma foice e alguns ancinhos. Com tudo isto fez uma sala de jantar em estilo russo. No quarto da cama, para que este parecesse uma gruta, forrou o teto e as paredes com um tecido escuro, pendurou uma lanterna veneziana por cima do leito e, perto da porta, colocou uma estátua com uma alabarda na mão. E toda a gente achou que o jovem casal tinha um ninho encantador. Todos os dias se levantava cerca das onze horas, tocava piano ou, se fazia sol, pintava qualquer coisa. Depois, perto da uma, ia à modista. Como ela e o marido tinham pouco dinheiro, era necessário fazerem economias. Assim, de combinação com a modista, e para que apre‑ sentasse sempre novos e lindos vestidos, as duas recorriam a alguns estratagemas. Muitas vezes, de um vestido já tingido, de bocados de renda, de seda ou peles que não prestavam para nada, saíam verda‑ deiras obras de arte, qualquer coisa de deslumbrante; não um vestido, mas um sonho. De casa da modista, Olga Ivanovna seguia habitualmente para casa de alguma artista sua conhecida, a fim de se inteirar das últimas

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novidades teatrais, e aproveitava para pedir um bilhete para uma es‑ treia ou um benefício. Dali encaminhava­‑se para o atelier de um pintor ou para uma exposição de quadros; depois ia a casa de qualquer ce‑ lebridade, para lhe fazer um convite, pagar­‑lhe uma visita ou, muito simplesmente, para tagarelar. E em toda a parte Olga Ivanovna era recebida com alegria e ami‑ zade. Em toda a parte também lhe afirmavam que era boa, encanta‑ dora e excecional… Aqueles a quem apelidava de célebres e grandes recebiam­‑na como uma igual e faziam votos para que, aproveitando o talento, o bom gosto e o espírito que possuía, viesse muito em breve a fazer algo que a celebrizasse. Olga Ivanovna sabia cantar, tocar piano, pintar, modelar, entrava em espetáculos como amadora, quase sempre de improviso, mas com talento. Tudo quanto fazia era extraordinaria‑ mente artístico, gracioso e bonito, quer fossem lanternas, modelos de vestidos, laços de gravata… No entanto, onde punha mais à prova as suas qualidades era na arte de criar relações e ganhar a afeição de gente célebre. Quando qualquer pessoa se tornava conhecida, por pouco que fosse, passando a andar nas asas da fama, depressa se relacionava com ela, fazendo­ ‑se sua amiga e convidando­‑a logo para sua casa. Todos os novos co‑ nhecimentos constituíam para si motivo de alegria. Adorava pessoas célebres, envaidecia­‑se com o seu convívio e todas as noites sonhava com elas. Nunca conseguia saciar a sede de celebridade que a domi‑ nava. Os velhos partiam e esquecia­‑se deles; vinham depois os novos substituí­‑los, e estes tão depressa a prendiam como a dececionavam. Começava então, avidamente, à procura de outros, de novas perso‑ nalidades. Encontrava­‑as, mas continuava sempre a eterna busca… A causa disto? Jantava em casa, cerca das cinco horas, com o marido, cuja simplici‑ dade, bom senso e cortesia a humilhavam e encantavam. Levantava­‑se constantemente da mesa, abraçava­‑lhe a cabeça, e cobria­‑a de beijos. – Dymov – dizia­‑lhe –, és um homem inteligente e nobre, mas tens um grande defeito: não te interessas por nada que seja arte. Rejeitas a música e a pintura. – Não compreendo essas coisas – respondia­‑lhe o marido, com mo‑ déstia. – Dediquei toda a minha vida ao estudo das ciências naturais e da medicina e não me sobra tempo para me ocupar da arte.

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– Mas isso é um absurdo, Dymov. – Porquê? As pessoas das tuas relações ignoram as ciências natu‑ rais e a medicina e tu não as censuras por isso. Cada um tem as suas preferências. Eu não percebo nada de paisagens, nem de óperas, mas julgo que, se tantas pessoas inteligentes dedicam a sua vida a isso e algumas lhe sacrificam o seu dinheiro, é porque ao cabo e ao resto tais coisas lhes são indispensáveis. Não compreendo a arte, mas isso não significa que a rejeite. – Deixa­‑me apertar a tua mão honrada! Depois do jantar, Olga Ivanovna ia a casa dos amigos, em seguida ao teatro ou a um concerto. Regressava a casa depois da meia­‑noite, e isto repetia­‑se todos os dias. Recebia à quarta­‑feira. A dona da casa e os seus convidados não jogavam cartas nem dançavam. Entregavam­‑se ao prazer das artes. O artista dramático recitava, o cantor cantava, o pintor desenhava nos álbuns que Olga Ivanovna possuía em grande quantidade, o violonce‑ lista tocava e ela desenhava, modelava, cantava e acompanhava. Nos intervalos falava­‑se ou discutia­‑se literatura, teatro e pintura. Não ha‑ via senhoras presentes porque Olga Ivanovna achava todas as mulhe‑ res sensaboronas e banais, exceto as artistas e a sua costureira. Não se passava uma única reunião sem que a dona da casa não es‑ tremecesse ao ouvir tocar a campainha e dissesse com uma expressão triunfal: “É ele.” Para Olga Ivanovna, o termo “ele” significava qualquer nova cele‑ bridade que tivesse convidado. Dymov não estava no salão e ninguém se lembrava da sua existência. Mas, precisamente às onze e meia, abria­‑se a porta da sala de jantar. Dymov aparecia e, com um sorriso bondoso e modesto, dizia, esfregando as mãos: – Meus senhores, vamos cear. Todos se dirigiam à sala de jantar onde, sobre a mesa, estavam sempre as mesmas coisas: um prato de ostras, um bocado de presunto ou vitela, sardinhas, queijo, caviar, cogumelos, vodca e duas garrafas de vinho. – Meu querido chefe de mesa – dizia Olga Ivanovna, levantando os braços –, és encantador! Senhores, reparem bem, senhores, tem uma cabeça de tigre-de-bengala mas, ao mesmo tempo, a expressão meiga e encantadora de um veado. Oh, meu amor!

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Os convidados comiam, olhando para Dymov. “É, com efeito, um belo rapaz”, pensavam. Mas esqueciam­‑no depressa, e continuavam a falar de teatro, de música e de pintura. O jovem casal era feliz e a sua vida corria muito calma. Todavia, na terceira semana de lua de mel, acabou­‑se a felicidade e de uma ma‑ neira muito desagradável. Dymov apanhou no hospital uma camada de erisipela, teve de ficar na cama durante seis dias e os seus lindos cabelos pretos foram­‑lhe cortados à escovinha. Olga Ivanovna perma‑ necia ao seu lado, chorando amargamente. Quando o marido sentiu ligeiras melhoras, ela pôs­‑lhe um lenço branco na cabeça tapada e começou a pintar um beduíno, tomando­‑o como modelo. Estavam am‑ bos satisfeitos. Três dias depois, já curado, ele voltou ao hospital, onde o aguardava um novo dissabor. – Não tenho sorte nenhuma, mãezinha – disse­‑lhe ele certa vez, ao jantar –, fiz hoje quatro autópsias e cortei dois dedos, mas só dei por isto em casa. Olga Ivanovna assustou­‑se. O marido riu­‑se e disse­‑lhe que isso não tinha qualquer importância, pois acontecia­‑lhe muitas vezes cortar­‑se durante as autópsias. – O trabalho absorve­‑me, minha querida, e distraio­‑me. Olga Ivanovna, alarmada, receava uma infeção e rezou durante vá‑ rias noites, mas tudo passou, felizmente. De novo começou uma vida tranquila e feliz, sem desgostos nem in‑ quietações. O presente era bom, e a primavera aproximava­‑se a sorrir, a prometer mil venturas. Não acabaria a felicidade… abril, maio e ju‑ nho, passá­‑los­‑ia numa casa de campo, longe da cidade, com passeios, desenhos, pesca, rouxinóis, e depois, desde julho até ao outono, uma excursão de pintores pelo Volga. Olga Ivanovna, membro perpétuo da Société, já mandara fazer dois vestidos para a viagem, de cotim, com‑ prara aguarelas, pincéis, tela e uma paleta nova. Ryabovsky vinha todos os dias verificar os progressos de Olga na pintura. Quando ela lhe mostrava o trabalho, ele enterrava as mãos nos bolsos, mordia os lábios com força, fungava e dizia: – Sim… Esta nuvem berra; não tem a luz do entardecer. O primeiro plano está empastado, e aqui, veja bem, há, qualquer coisa que não bate certo. A sua pequena isba está abafada não sei porquê e choca

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desagradavelmente… É preciso tornar este canto mais escuro. Em con‑ clusão, não está mal de todo. Felicito­‑a. Depois falava confusamente, mas Olga Ivanovna compreendia­‑o bem.

III Depois do dia da Santíssima Trindade, a seguir ao jantar, Dymov comprou aperitivos, bombons, e foi reunir­‑se à mulher no campo. Havia duas semanas que não a via, aborrecendo­‑se muito longe dela. Durante a viagem e depois, enquanto procurava a casa numa clareira, sentia fome e cansaço, mas antegozava já o prazer de cear com ela e depois deitarem­‑se. Sentia­‑se muito contente, olhando o embrulho que continha caviar, queijo e esturjões. Quando identificou a residência, o Sol já se havia posto. A velha criada de quarto informou­‑o de que a senhora não estava em casa mas que não tardaria. A vivenda dispunha apenas de três quartos, aparentemente feios, com tetos baixos, forrados de papel escolar, e os soalhos, mal aplainados, estavam cheios de buracos. Num deles havia uma cama. No outro, em cima das cadeiras e nos parapeitos das janelas, misturavam­‑se telas, pincéis, papel vegetal, casacos e chapéus de homem. No terceiro quarto, Dymov foi dar com três desconhecidos. Dois deles morenos e barbudos; o outro, sem barba e gordo, era, evidentemente, um ator. O samovar fervia em cima da mesa. – Que deseja? – perguntou o ator em voz baixa, fitando­‑o sem cor‑ dialidade. – Procura Olga Ivanovna? Ela não se demora. Dymov sentou­‑se e esperou. Um dos homens morenos, ensonado e olhando­‑o de soslaio, precipitou­‑se para o chá e inquiriu: – Deseja talvez um pouco de chá? Dymov, embora lhe apetecesse comer e beber, recusou, para não estragar o apetite. Nisto ouviram­‑se passos e um riso muito seu conhe‑ cido. A porta bateu e Olga Ivanovna entrou no compartimento, com um chapéu de abas largas, trazendo uma caixa na mão. Ryabovsky, alegre e de bochechas coradas, seguia­‑a com um grande guarda­‑sol e uma cadeira de desarmar.

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– Dymov! – gritou Olga Ivanovna, doida de alegria. – Dymov! – re‑ petia encostando a cabeça e as duas mãos no peito. – És tu, realmente? Porque é que não vieste há mais tempo? Porquê? Porquê? – Mas como poderia vir, mãezinha? Todo o meu tempo está ocu‑ pado e, quando livre, já não há transporte. – Como estou contente por te ver! Sonho contigo toda a noite e rece‑ ava que estivesses doente. Se soubesses como foste simpático e como a tua vinda é oportuna! Serás o meu libertador! Só tu me podes salvar. Amanhã há aqui um casamento muito estranho – dizia ela, enquanto lhe ia apertando o nó da gravata. – Casa­‑se um jovem telegrafista da estação, um tal Tchikildieiev. É uma joia de homem, nada estúpido, forte como um urso… Pode servir de modelo a um jovem Varègue. Todos os veraneantes se interessam por ele e lhe prometeram assistir ao casamento. É um homem pobre, isolado e tímido. Talvez fosse um pecado recusar­‑lhe o nosso interesse. Depois da missa efetuar­‑se­‑á o casamento e em seguida iremos a pé para casa da noiva… Estás a ver uma clareira, as aves a cantar, as manchas do Sol e nós todos proje‑ tando sombras na erva. Muito original. À maneira dos impressionistas franceses. Mas olha lá, Dymov – inquiriu Olga Ivanovna, com uma ex‑ pressão melancólica –, que hei de eu vestir para levar à igreja? Não tenho nada, literalmente nada! Nem vestido, nem luvas, nem flores… Tens de me salvar! Uma vez que vieste, é esse o teu dever! Toma as chaves, meu querido; corre a casa e procura no armário o meu vestido cor­‑de­‑rosa. Lembras­‑te, está pendurado mesmo à frente… Depois, no quarto das arrumações, à entrada, no chão, estão as caixas. Na de cima deves encontrar algum tule, montes de tule, e depois alguns trapos e flores. Tira com cuidado as flores cá para fora; faz os possíveis por as não amachucar; depois eu escolho… E compras­‑me também um par de luvas. – Bem – disse­‑lhe Dymov –, vou lá amanhã e depois mando­‑te tudo isso. – Amanhã! – exclamou Olga Ivanovna, fitando­‑o com surpresa. – Como é que terás tempo para isso! Primeiro, o comboio parte às nove horas e o casamento é às onze. Não, meu querido, tem de ser hoje. Hoje, sem falta! Se não quiseres voltar para aqui, manda­‑me as coisas por um moço de recados. Vamos, despacha­‑te… O comboio não tarda a chegar; não o percas, meu amor!

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– Bem. – Ah! Que pena ter de te deixar ir embora! – disse Olga Ivanovna, e vieram­‑lhe as lágrimas aos olhos. – Mas porque prometi eu isto ao telegrafista? Dymov bebeu rapidamente uma chávena de chá, trincou um bis‑ coito e dirigiu­‑se à estação, a sorrir ternamente. O caviar, o queijo e os esturjões foram comidos pelos dois homens morenos e pelo ator gordo.

IV Olga Ivanovna, numa calma e clara noite de julho, encontrava­‑se sobre a ponte de um barco do Volga e ora fitava a água, ora as mar‑ gens. Junto dela, Ryabovsky dizia­‑lhe que, projetadas nas águas, as sombras negras não eram sombras, mas sim um sonho, e que, ao observar­‑se esta água mágica e cheia de reflexos fantásticos, o céu sem fundo, as margens tristes e melancólicas, que exprimiam a futili‑ dade da vida e da existência, de algo mais elevado, de divino, apete‑ cia uma pessoa esquecer tudo, morrer, tornar­‑se numa recordação… O passado era banal e sem interesse; o futuro, medíocre; e esta noite magnífica e única em breve iria acabar fundida na eternidade; viver­ ‑se, pois, para quê? Olga Ivanovna ora escutava a voz de Ryabovsky, ora a calma da noite; e ia pensando que era imortal, que nunca morreria. O azul­ ‑turquesa da água, que nunca vira antes, o céu, as margens, as som‑ bras escuras, e uma alegria absurda que lhe enchia a alma, tudo lhe comunicava que viria a ser uma grande artista e que, algures ao longe, além da noite clara, num espaço indefinido, a esperavam o êxito, a glória e o amor dos povos… Sempre que olhava fixamente para longe, via multidões, luzes; escutava compassos de música, gritos de encan‑ tamento. Estava vestida de branco e sobre ela caíam flores vindas de todas as direções. Imaginava também que a seu lado, apoiando­‑se na amurada, se encontrava um homem realmente grande, um génio, um eleito de Deus… Tudo quanto ele até agora criara era belo, novo, extra‑ ordinário; e o que viria a criar, quando a idade viril lhe amadurecesse

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o talento, seria arrebatador, incomensurável; adivinhava­‑se isso pelo seu rosto, pela maneira de se exprimir e de se comportar em face da natureza. Falava­‑lhe das sombras, dos tons da noite, do brilho da Lua, numa linguagem só dele, de tal forma que ela se sentia involuntaria‑ mente arrebatada pelo encanto do seu poder sobre a natureza. Ele próprio era belo, original, e a sua existência independente, livre, des‑ provida de qualquer espécie de preocupação material, assemelhava­ ‑se à vida das aves. – Começa a estar fresco – disse Olga Ivanovna, estremecendo. Ryabovsky envolveu­‑a na sua capa e disse, lamentando­‑se: – Sinto­‑me em seu poder, sou um escravo. Porque está hoje tão se‑ dutora? Fitava­‑a constantemente, com uma expressão assustadora nos olhos, e ela tinha medo de o olhar. – Amo­‑a doidamente – murmurou ele, respirando junto à sua face. – Basta uma palavra sua e porei termo à vida; até abandonarei a arte – declarou o rapaz numa grande agitação. – Conceda­‑me o seu amor, peço­‑lhe!… – Não diga isso – retorquiu Olga Ivanovna, fechando os olhos. – Sinto­‑me aterrorizada. E o Dymov? – O Dymov? Para quê falar do Dymov? Que me interessa o Dymov? Admire o Volga, a Lua, a beleza, o meu amor, o meu êxtase; o Dymov não existe… Ah! Nada sei! Não precisa do passado para nada; conceda­ ‑me um instante, apenas um minuto!… O coração de Olga Ivanovna bateu mais depressa. Queria pensar no marido; mas todo o seu passado, o casamento, Dymov, os serões, tudo se lhe afigurava mesquinho, sem existência, sombrio e inútil, e remoto também… Sim, de facto, porquê preocupar­‑se com Dymov? Existiria ele na realidade? Seria algo mais do que um simples sonho? “A felicidade que já recebeu é mais do que suficiente para esse ho‑ mem simples e vulgar”, pensava ela, tapando o rosto com as mãos. “Ainda que seja condenada lá em cima, amaldiçoada, apesar de tudo, vou perder­‑me; e já. Na vida, temos de experimentar tudo. Meu Deus, como isto é, ao mesmo tempo, assustador e bom!” – Então – murmurou o pintor, beijando e apertando avidamente as mãos com as quais ela tentava, sem energia, afastá­‑lo. – Amas­‑me? Anda, diz. Oh! Que noite! Que noite maravilhosa!

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– Sim, que noite! – murmurou ela, fitando­‑o com os olhos brilhantes de lágrimas; depois de observar rapidamente em volta, abraçou­‑o e beijou­‑o com sofreguidão na boca. – Estamos a chegar a Kinechma! – exclamou alguém do outro lado da ponte. Ouviram­‑se uns passos pesados. Era o criado do bufete que se apro‑ ximava. – Traga­‑me vinho – disse­‑lhe Olga Ivanovna, rindo e chorando de felicidade. O pintor, pálido de emoção, sentou­‑se no banco, fitou em Olga Ivanovna os olhos apaixonados e reconhecidos. Depois fechou­‑os e disse, sorrindo languidamente: – Sinto­‑me fatigado! E apoiou a cabeça na amurada.

V O dia 2 de setembro, embora quente e calmo, nasceu sombrio. Ao fim da manhã pairava por cima do Volga uma bruma leve. Começou a chover depois das nove horas. Não havia a mínima esperança de que o céu se descobrisse. À hora do chá, Ryabovsky dissera a Olga Ivanovna que não havia arte mais ingrata e mais triste do que a pintura, que ele não era pin‑ tor, que apenas os imbecis acreditavam no seu talento. E de súbito, sem mais nem menos, agarrando numa faca, golpeou o seu melhor estudo. Depois do chá, conservou­‑se sentado, a olhar melancolica‑ mente para o Volga. O rio já não tinha reflexos; estava baço, escuro e frio. Tudo, mas tudo, invocava já, com melancolia e angústia, a aproximação do outono. E parecia que os sumptuosos tapetes verdes das margens, que os lampejos diamantinos dos raios de luz, que o horizonte azulado, transparente, em suma, todo este cenário ele‑ gante mas falso fora agora retirado pela natureza, que o arrumara nas suas malas até à próxima primavera. Os corvos esvoaçavam em torno do Volga e pareciam arreliá­‑lo, dizendo: “Estás nu! Estás nu!” Ryabovsky escutava o seu crocitar, pensando que perdera o talento;

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que tudo, no mundo, é condicional, relativo e estúpido; e que nunca se deveria ter ligado àquela mulher. Numa palavra, estava maldis‑ posto e aborrecia­‑se. Olga Ivanovna, sentada na cama, atrás da divisória, acariciava com os dedos os cabelos cor de linho. Ora imaginava estar no seu salão, ora no seu quarto, ora ainda no consultório do marido. A imaginação transportava­‑a para o teatro, para casa da costureira, para a compa‑ nhia dos amigos célebres; que estariam estes agora a fazer? A pen‑ sar nela? A época elegante já principiara, e era altura de começar a preocupar­‑se com as suas receções. E Dymov? O querido Dymov? De que forma ele lhe pedia, terna e ingenuamente, nas suas cartas, como uma criança, que regressasse depressa! Enviava­‑lhe todos os meses setenta e cinco rublos e, quando ela lhe mandara dizer que devia cem aos pintores, remetera­‑lhe também essa importância. Que homem tão bom e generoso! A viagem fatigara Olga Ivanovna; aborrecia­‑se; o seu desejo era afastar­‑se o mais depressa possível dos mujiques, da humidade do rio, e de se libertar também da sensação de porcaria que a assaltava ao pernoitar nas isbas de camponeses ou quando passeava nas aldeias. Se  Ryabovsky não tivesse prometido aos colegas ficar com eles até 20  de setembro, poderiam ter­‑se ido embora nesse mesmo dia. Que bom isso teria sido!… – Meu Deus – gemia Ryabovsky –, quando é que voltará a haver sol? Não consigo, sem sol, pintar uma paisagem soalheira! – Mas tu tens um estudo feito num dia enevoado – disse­‑lhe Olga Ivanovna, saindo de detrás da divisória. – Lembras­‑te? À direita há um bosque e, à esquerda, vacas e patos. Podias acabá­‑lo agora. – Ah! – gemeu o pintor. – Acabá­‑lo?! Julgas­‑me tão estúpido, que não saiba o que me convém fazer? – Como tu mudaste a meu respeito! – suspirou Olga Ivanovna. – Pronto, acabou­‑se. Olga estremeceu; encaminhou­‑se para o fogão e pôs­‑se a chorar. – Só faltavam as lágrimas. Acaba lá com isso! A mim não me faltam motivos para chorar, e no entanto domino­‑me. – Razões para chorar! – exclamou Olga Ivanovna, perdendo a ca‑ beça. – A principal é eu ser um estorvo na tua vida. Sim – prosseguiu ela, soluçando. – Sejamos honestos: envergonhas­‑te do nosso amor.

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Procedes sempre de forma que os teus colegas não deem por nada, embora a verdade se não possa ocultar e toda a gente já esteja há muito no conhecimento do que se passa entre nós. – Olga – disse o pintor em tom suplicante, pondo a mão no peito –, peço­‑te uma coisa, apenas uma: não me tortures! Não desejo mais nada! – Jura­‑me que ainda gostas de mim! – É horrível! – exclamou o pintor baixinho, levantando­‑se. – Ainda acabo por me deitar ao Volga ou então endoideço! Deixa­‑me! – Nesse caso, mais vale matares­‑me – gritou Olga Ivanovna. – Mata­ ‑me já! Começou de novo a soluçar, voltando para trás da divisória. A chuva caía sobre o teto de colmo. Ryabovsky, de cabeça apertada nas mãos, começou a passear para trás e para diante; em seguida, com uma ex‑ pressão voluntariosa, como se pretendesse provar qualquer coisa a al‑ guém, agarrou no boné, pôs a espingarda às costas e saiu da isba. Depois de ele abalar, Olga Ivanovna permaneceu muito tempo dei‑ tada em cima da cama, chorando. A princípio, pensou que seria me‑ lhor envenenar­‑se para que Ryabovsky, ao voltar, a encontrasse morta; depois, transportou­‑se em pensamento até à sala de visitas da sua casa, ao escritório do marido, e imaginou­‑se sentada, imóvel, junto de Dymov, gozando o descanso do seu corpo e a higiene da sua casa; em seguida, achou­‑se no teatro, à noite, escutando Mazzini. A nostalgia da vida civilizada, do barulho da cidade, o burburinho dos homens céle‑ bres, tudo lhe oprimia o coração. Uma aldeã entrou na isba e começou, sem pressa, a acender o fogo para fazer o jantar. Cheirava a carvão e o fumo azulava o ar. Os pin‑ tores regressaram com as botas muito sujas e a cara molhada pela chuva. Examinavam os seus quadros e diziam para se consolar que o Volga, apesar do mau tempo, tinha sempre encanto. Pendurado na pa‑ rede, o relógio avançava: tiquetaque, tiquetaque. As moscas, transidas, haviam­‑se colado a um canto, perto das imagens, e zumbiam. Ouviam­ ‑se as baratas passear dentro das caixas de cartão que estavam debaixo dos bancos… Ryabovsky regressou a casa ao pôr do Sol. Atirou o boné para cima da mesa e, pálido, extenuado, de botas sujas, deixou­‑se cair sobre o banco, fechando os olhos.

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– Estou fatigado – disse, a arquear as sobrancelhas, tentando abrir os olhos. Para se roçar por ele, mostrando­‑lhe assim que não estava zangada, Olga Ivanovna, depois de se aproximar, beijou­‑o em silêncio e passou­ ‑lhe o pente pelos cabelos loiros; queria penteá­-lo. – Que se passa? – perguntou ele, estremecendo, como se algo de muito frio o tivesse tocado. Abriu os olhos. – Que há? Deixa­‑me em paz, suplico­‑te! Repeliu­‑a e afastou­‑se, dando a impressão de que a sua cara refletia desgosto e despeito. Neste momento, a camponesa entrou, segurando cautelosamente um prato de sopa de couves com ambas as mãos e Olga Ivanovna viu que ela mergulhava nele os polegares. E aquela porcalhona de barriga empinada, a sopa de couves que Ryabovsky comeu sofregamente, a isba e toda aquela vida que ela, a princípio, tanto amara pela sua sim‑ plicidade, tudo isto, agora, lhe parecia abominável. Sentiu­‑se subitamente ofendida e declarou com frieza: – Temos de nos separar por uns tempos; de contrário, o aborreci‑ mento levar­‑nos­‑á a uma discussão grave. Estou muito nervosa. Vou­ ‑me hoje embora. – De que maneira? A cavalo num pau? – É quinta­‑feira. O barco passa aqui às nove e meia… – Ah, sim!… Então está bem, vai­‑te embora – disse Ryabovsky sua‑ vemente, limpando­‑se à toalha de mãos, como se fosse a um guarda‑ napo. – Isto é muito triste para ti e também não tens nada que fazer. Seria preciso que eu fosse muito egoísta para te prender. Vai­‑te em‑ bora, encontrar­‑nos­‑emos depois do dia vinte. Olga Ivanovna preparou as bagagens com alegria e a sua cara revelava grande satisfação. Seria verdade, pensava ela, que em breve estaria de novo a escrever na sua sala, a dormir na sua cama e a jan‑ tar à sua mesa? O coração reanimou­‑se­‑lhe e a calma voltou­‑lhe ao espírito. – Deixo­‑te os pincéis e as aguarelas, Riabouchka1 – disse­‑lhe ela. – Levarás o que sobrar. Sem mim, passa­‑te logo a preguiça; põe de lado os aborrecimentos e trabalha. És um homem corajoso, Riabouchka. 1

Diminutivo de Ryabovsky. (N. do T.)

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Às nove horas, à guisa de adeus, Ryabovsky beijou­‑a, para não ter de o fazer diante dos pintores, pensou ela. Depois foi acompanhá­‑la ao cais. O barco, que não tardou a chegar, levou­‑a. Passados dois dias e meio já estava em casa. Sem tirar o chapéu e o casaco, comovida e ofegante, dirigiu­‑se ao salão e dali à sala de jantar. Dymov, em mangas de camisa, o colete desabotoado, estava à mesa e afiava a faca com um garfo; no seu prato via­‑se um frango gordo. Ao entrar em casa, Olga Ivanovna convencera­‑se de que seria pre‑ ciso ocultar tudo ao marido e sentia­‑se com habilidade e firmeza sufi‑ cientes para o fazer. Mas, vendo o seu riso aberto, suave e feliz, aqueles olhos brilhantes e alegres, sentiu que dissimular em face deste homem era uma atitude tão cobarde, repugnante, impossível e acima das suas próprias forças, como caluniar, roubar ou matar. E, num abrir e fechar de olhos, resolveu contar­‑lhe o que acontecera. Deixando­‑se beijar, pôs­‑se de joelhos diante dele e escondeu a cara. – Que se passa, mãezinha? – perguntou­‑lhe ele, com ternura. – Alguma contrariedade? Olga ergueu para ele o rosto corado e olhou­‑o suplicante. Mas o medo e a vergonha impediram­‑na de falar. – Nada… – respondeu­‑lhe. – Lembrei­‑me duma coisa… – Anda para aqui – disse ele, levantando­‑a e obrigando­‑a a sentar­‑se à mesa. – Então, vamos!… Come qualquer coisa! Tens fome, pobrezinha… Ela aspirava avidamente o calor da sua casa, saboreava o frango, enquanto o marido, por sua vez, olhando­‑a com suavidade, ria alegre‑ mente.

VI Em meados do inverno, Dymov convenceu­‑se de que estava a ser enganado. Como se a sua consciência não estivesse tranquila, não po‑ dia olhar de frente para a mulher; já não sorria com satisfação ao encontrarem­‑se e, para ficar menos tempo a sós com ela, convidava algumas vezes para jantar em sua casa um colega, Korostelev. Este era um homem baixinho, de cabelo cortado à escovinha, cara enrugada,

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que, ao falar com Olga Ivanovna, abotoava e desabotoava nervosa‑ mente o casaco. Depois, com a mão direita, cofiava a guia esquerda do bigode. Ao jantar, os dois médicos diziam, por exemplo, que um alto desequilíbrio na posição do diafragma provocava um bater anormal do coração e que se haviam verificado, nestes últimos tempos, nume‑ rosos casos de polionevrites. Diziam ainda que, na véspera, Dymov autopsiara um cadáver com o diagnóstico de “anemia perniciosa” e afinal tinha um cancro no pâncreas. Dava a impressão de que ambos mantinham esta conversa técnica para que Olga Ivanovna permane‑ cesse calada, sem mentir. Depois do jantar, Korostelev sentava­‑se ao piano. Dymov, suspi‑ rando, dizia­‑lhe: – Toca­‑me qualquer coisa triste! Levantando os cotovelos e abrindo largamente os dedos, Korostelev extraía alguns acordes e punha­‑se a cantar com voz de tenor: “Indique­ ‑me qual a região onde o mujique russo nunca tenha sofrido.”2 Dymov suspirava ainda, apoiava a cabeça nas mãos e permanecia pensativo. Olga Ivanovna, nos últimos tempos, adotara um comportamento muito imprudente. Acordava de mau humor, com a ideia de que não amava já Ryabovsky e que, graças a Deus, tudo tinha acabado entre ambos. A seguir ao pequeno­‑almoço, acusava­‑o de lhe ter feito perder o marido, e agora já não lhe restava nem um nem outro. Vinha­‑lhe à lembrança o que lhe diziam os seus amigos acerca de Ryabovsky, o qual preparava para a sua próxima exposição algo de sensacional: uma estilização da paisagem à maneira de Polyenov, que encantara todos os que haviam visitado o seu estúdio. Chegava a convencer­‑se de que ele fizera isto sob a sua influência, graças à qual evoluíra tam‑ bém bastante. Esta influência era­‑lhe tão benéfica e essencial que, se o deixasse, ele acabaria por se perder. Lembrava­‑se de que a última vez que fora a casa dela, Ryabovsky trazia uma sobrecasaca nova e perguntara­‑lhe languidamente se estava bonito. Na verdade, a sua elegância, os cabelos encaracolados e os olhos azul­‑claros tornavam­ ‑no muito belo (pelo menos assim lhe parecera), e fora amável para com ela. 2

Versos de Nekrassov. (N. do T.)

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